Empoderamento e Transformação Social

Estilista Gabriel Da Silva fala sobre como descobriu a moda ainda na infância, e a
experiência da coleção em collab com a Pernambucanas.
Morador da Cohab da zona norte de São Paulo, Gabriel da Silva Alves, tem 28 anos,
e desde cedo já prometia se tornar um jovem talento na moda. Ele é a prova viva dentre várias potências periféricas, passou por inúmeros desafios financeiros e pré-concei-
tos, reconhecendo sua origem na periferia e descobrindo que poderia ser protagonista da sua própria realidade.
Desde criança, Gabriel da Silva demonstrou um talento natural para o desenho e a moda. Com apenas 9 anos, ele já sabia que queria ser.
“Eu comecei a interagir com a moda e fazer coisas com moda quando eu tinha 9 anos. Eu desenhava diversos tipos de coisas, e uma amiga da minha mãe que havia feito curso de moda me ajudou. Olhei para minha mãe e disse que queria ser estilista, mas todo mundo riu da minha cara” - Diz Gabriel Da Silva
O universo da moda para Gabriel da Silva, sempre foi mais do que roupas. Ainda na faculdade, através de uma bolsa obtida pelo Prouni (programa do governo que oferece bolsas em faculdades particulares), ele teve a chance de estudar Moda, lembra que os conceitos eram sempre a partir das histórias, referências e do olhar europeu sobre
a moda. Nascido e criado na periferia, o jovem estilista demonstrou um olhar atento para a cultura e as vivências da sua comunidade.
A tradição familiar em compartilhar roupas, a confecção de panos de pratos, o senso estético periférico ligado à prosperidade, tudo isso alimentou bastante o imaginário de Gabriel, que mais tarde viria a participar desse processo e mudança na forma como o mundo perceberia a moda periférica, quebrando estereótipos e mostrando que a moda pode ser um instrumento de empoderamento e transformação social.
“Temos essa mania de não perceber que evoluí mos. Parece que estamos dentro de um ônibus, apenas indo e voltando do trabalho.” - Diz Gabriel Da Silva
Para ele, é crucial reconhecer o crescimento, tanto individual quanto coletivo, e a potência que emerge dessa evolução. Após participar e sair vitorioso do Reality Show Design Vision de 2021, Gabriel da Silva foi convidado a fazer um curso no IED (Instituto Europeu de Design). O curso é realizado durante um ano em São Paulo, e uma semana em Milão, na Itália. Sobre esse momento, ele comenta:
“Imagina você fazer um curso, só ter dois bolsistas dentro desse curso, e você vai pra Milão”. - Diz Gabriel Da Silva
No trabalho de conclusão de curso apresentado em Milão, foi usado a imagem
do personagem icônico do universo de Dragon Ball, Majin Boo:
“Eu apresentei o Majin Boo ali e expliquei todas as minhas referências periféricas. Pois dentro dos objetivos daquele trabalho, eu tinha que apresentar a minha imagem lá.” - Diz Gabriel Da Silva.
Os vilões frequentemente são apresentados nas histórias com uma origem que revelam suas vulnerabilidades e traumas. O Majin Boo, por exemplo, é um ser complexo que, em muitas situações, é mal interpretado. Ele é uma metáfora para aqueles que são vistos como diferentes ou ameaçadores apenas por sua aparência ou origem.
Essa é uma realidade que muitos na periferia enfrentam diariamente. Não à toa que o mesmo acontece com o uso da figura do “Coringa”, outro personagem fictício que também é considerado um vilão, porém fortemente adotado na cultura periférica.
Foto: @ladeirra | Modelo: Aleph Carvalho @carvalhosfx
“O Majin Boo está dentro de um espaço que não é dele. Ali dentro do desenho ele é um estrangeiro que toda hora todo mundo quer matar e acabar com ele, há sempre alguém querendo o expulsar daquele ambiente. Uma outra referência nesse meu TCC, eram os Mibs - Homens de Preto, essa ideia no filme em que os agentes vão montar uma catraca na qual os alienígenas só podem entrar ao passar por um controle de acessos.” - Diz Gabriel Da Silva
De acorco com Gabriel da Silva, a imagem não tinha uma manipulação de outra pessoa que não fosse periférica, aquela imagem tinha lugar, significado e potência. O maquiador também é o proprio modelo, nos ensaios com o personagem Majin Boo - Aleph Carvalho @carvalhosfx.
(Sobre o Aleph Carvalho): “É uma pessoa que faz caracterização dos palhaços de alguns MCs, então é uma pessoa específica que já entende sobre esse mundo e conseguiria passar essa mensagem através daquela caracterização.”- Diz Gabriel Da Silva
Foto: @ladeirra | Assistente de fotografia: André Maciel @_eumaciel1 | Modelo: Aleph Carvalho @carvalhosfx | Styling e Direção: Da Silva @da_silva_____ | Assistência: André Alves @andrealves_r10 | Caracterização: Aleph @carvalhosfx
É importante notar como a participação de pessoas da periferia nos processos de criação de uma ideia e ou imagem ligada à estética da moda periférica, ganham mais poder de identificação, quando esses espaços de liderança e criação são gerenciados por quem vive a mesma realidade a ser trabalhada, ou pelo menos tem uma real leitura dos espaços, não se limitando a aspectos apenas socioeconômicos ou de violência urbana. Podemos encontrar muitos trabalhos falando sobre a desigualdade existente nas periferias, ou a falta de segurança, mas raramente encontramos leituras que façam a associação a outros elementos da cultura pop, que faça sentido dentro da estrutura social com metáforas.
Outro exemplo que assistimos de vilões serem populares nas periferias, além do coringa, são os irmãos metralha da Disney. Essa atração por vilões pode ser entendida em várias camadas. Primeiro, eles frequentemente são personagens que quebram barreiras e desafiam o sistema.
Colab: Da Silva e a Pernambucanas
Na descrição da foto em seu Instagram, Gabriel escreve: “Coleção-cápsula articulada à efervescência cultural entre a moda e o design sustentável oriundos de signos das periferias paulistanas." A coleção conta com a assinatura do designer Da Silva para a Pernambucanas, com venda disponível nas lojas físicas e e-commerce da varejista.
Após ganhar o Reality Show, Gabriel teve a chance de fazer uma collab com a loja de departamentos Pernambucanas, e faz questão mais uma vez de trabalhar nesta coleção apenas com profissionais que também são periféricos, além de exigir que sua coleção estivesse presente nas lojas da varejista que estivessem próximas das regiões mais afastadas e periféricas:
“Eu não queria que fosse vendido só na Paulista, não fazia sentido para mim, o que faz sentido para mim é na zona leste, no final da zona leste, é essa pessoa que eu quero conversar. Eles atenderam o meu pedido, foram distribuídas as peças em 30 lojas e nessas 30 lojas 28 eram de quebrada.” - Diz Gabriel Da Silva
Gabriel encontrou uma forma de transformar a sua percepção sobre a moda periférica, mostrando que ela não é apenas uma tendência, mas uma rica expressão cultural que merece ser valorizada, e uma potencial ferramenta de inclusão. A coleção é fundamentada na originalidade, conforto e qualidade.
Todas as peças foram elaboradas com matéria prima de fibras naturais de outros tecidos reaproveitados.
Coleção-cápsula sustentável e democrática Colab: Da Silva e Pernambucanas - Modelos: @iam.santt, @albuquerque_deivd, @zuriibarreto, | Foto: @victor_cazuza | Styling e Direção: Da Silva @da_silva_____
A trajetória de Gabriel tem a força criativa que nasce nas periferias, sua visão de moda como um veículo de transformação social e empoderamento ressoa com muitos que compartilham experiências semelhantes. Com uma determinação inabalável e uma paixão pela moda que transcende barreias, Gabriel da Silva não só está moldando seu futuro, mas também inspirando uma nova geração a acreditar.
Por: Fábio Almeida | Fotos: Victor Cazuza & Rodrigo Ladeira @victor_cazuza | @ladeirra


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