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O que é Moda Periférica?

  • Foto do escritor: Fábio Almeida
    Fábio Almeida
  • 30 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

Além da composição de peças e acessórios, é uma forma de representatividade que nasce nas ruas e ganham o mundo.


Imagine-se indo para um rolê trajado de forma confortável e confiante. Botar aquela “peita chave”, usar um corta-vento se estiver frio, um tênis estiloso e jamais esquecer da “lupa”, no caso, o “Juliete”. Essa é a construção da imagem do indivíduo periférico, já gravada na mente das pessoas, principalmente quando se fala das periferias de São Paulo. Mas a moda urbana e periférica significa mais do que apenas a composição de peças e acessórios; é uma forma de representatividade e senso de comunidade. Conforme a pesquisa do Grupo

Consumoteca, com a participação de 4 diferentes estados brasileiros, considerando suas principais periferias, 47% dos periféricos concordam que:


“A periferia não é somente onde eu moro, é a minha identidade, o meu modo de ser e estar no mundo.”

- Homem, 32 anos, Rio de Janeiro.


Para Wesley Xavier, conhecido como “Ogum Doce” nas redes sociais, especialista em comportamento e consumo periférico, diz que, quando falamos de moda, falamos sobre

comportamento e sobre a construção de escolhas em cima de um contexto. Segundo ele, não é uma associação diretamente ao território geográfico, mas sim a uma comunidade, uma

forma de vida que se constrói nesses espaços e forma indivíduos de uma maneira particular.


“Moda periférica é um conjunto de formações e escolhas que nascem dentro dessas comunidades e ganham o mundo”

Afirma Wesley Xavier.


A mesma pesquisa revela que 36% dos periféricos acreditam que a periferia tem uma moda própria, que os inspira mais do que as classes mais altas. Esse número sobe para 46% entre jovens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) e pessoas autodeclaradas pretas.


De acordo com Wesley Xavier, as vivências periféricas estão frequentemente ligadas à busca por segurança e autonomia, esses dois fatores podem resumir o que é fazer “O CORRE”, com o básico garantido, a luta evolui para a busca por realizações maiores e desejos que até então eram reprimidos, como ter um tênis que sempre sonhou na infância que agora passa a ser possível, após ter conquistado o próprio corre. A força visual da moda periférica constituída pelo indivíduo periférico, não se limita apenas ao campo visual, mas em uma cultura periférica praticada há muito tempo, trazendo signos que permitem à própria comunidade periférica realizar uma leitura de empoderamento em suas vidas. O signo

da imagem periférica, por exemplo, pode carregar um significado muito mais amplo e complexo sobre prosperidade e conquistas individuais.


Embora o uso de camisetas de futebol e chinelos Kenner (marca lançada em 1988 no Rio de

Janeiro) venha ganhando destaque na grande mídia nos últimos anos, para quem vive a realidade periférica, essa estética é tradicional e até antiga. Quem está fora das periferias e imagina a moda periférica de maneira superficial está, sem dúvida, atrasado nas tendências que surgem na quebrada. Quem já ouviu falar no termo “Brazil Core”, sabe bem o quanto as marcas estrangeiras estão supostamente se apropriando de uma aparência e mudando sua

forma, antes de apresentá-la ao mundo.


#BrazilCore ganhou força na moda internacional, quando influenciadoras no instagram, passaram a usar roupas e acessórios fazendo referência à seleção brasileira de futebol. Muitos adotaram essa estética com a proximidade das eleições brasileiras e principalmente com a Copa do Mundo no Catar em de 2022.


Segundo a pesquisa feita pela Consumoteca, existe uma dinâmica bem específica que ajuda a entender como as marcas aparentemente, utilizam do conceito Brazil Core para se sobrepor das estéticas periféricas, e supostamente não reconhecer de forma ampla as suas influências iniciais, substituem o nome: “Moda Periférica” para “Brazil Core”, e passam a impressão de criadores de uma nova tendência.



Alexandre Linck Vargas, doutor em literatura, com longa esperência nos estudos do campo da estética e autor do canal, Quadrinhos na Sarjeta, no YouTube, acredita que a periferia é muito bem vista como espaços de tendências. Porém, o maior problema da moda periférica é não ganhar com aquilo que ela mesmo produz.

“A moda periférica possui muito mais um problema de ordem social. Quem vê problema na moda periférica, está enxergando problemas em quem as usa, do que necessariamente a moda em si.”

Linck ainda complementa dizendo:

“A periferia produz, mas a periferia nãoenriquece com o que ela produz. Alguém vai lá, produz de novo, adaptado com algumas mudanças para os gostos do centro. E quem enriquece é esse segundo agente.”

Há por parte da periferia o uso de camisetas de time, por tradição, carinho e identidade. Esse hábito em usar camisetas e artigos esportivos casualmente, gera um comportamento estético que influencia outras pessoas, causando um senso de comunidade. Esse mesmo comportamento estético só ganha relevância na mídia quando outras pessoas não-periféricas usam e postam nas redes sociais. Aí a mídia e a indústriada moda reconhecem o potencial mercadológico, dão um outro nome para uma tendência que já existia, porém sem visibilidade. Assim é criada uma nova "roupagem".


Esse novo nome agora é Brazil Core, que de certa forma, se sobrepõe em relação às tendências já criadas e consolidadas durante anos na periferia, causando um efeito de apagamento das origens, gerando o esquecimento das periferias como autoras da própria moda.


Por: Fábio Almeida @billsantos__

Fotografias: Samu @sa1el

Modelo: Ana Carolina Knowles @anacarolinaknowles

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